Posts filed under 'Literatura'
O oficial de Hitler a favor de sua pátria
Bruna Buzzo
Para que novembro não tivesse apenas uma matéria na parte de Livros da Bravo, a revista publicou além de José Saramago e a entrevista realizada com ele (motivadas pelo lançamento de seu novo livro), um
comentário sobre o escritor Ernst Junger, “O Bom Nazista”, que acaba de ter uma de suas obras traduzida aqui no Brasil.
Depois das 8 páginas ocupadas por Saramago, o pequeno Ernst recebeu apenas uma dupla: duas colunas de texto e uma página inteira para a foto do escritor e soldado alemão. Para explicar o título da matéria (O bom nazista), o repórter Jonas Lopes nos conta quem é este alemão e como ele obteve destaque no meio literário, apesar de ter lutado ao lado dos alemães nas duas grandes guerras mundiais.
Desde 1945, os escritores e intelectuais de destaque vindos da Alemanha em nossa sociedade são judeus sobreviventes, exilados de sua pátria ou jovens nascidos após o nazismo e que o renegam ideológicamente. O trauma do Holocausto marcou a obra alemã em todos os seus aspectos artísticos. Pensadores nazistas foram terminantemente banidos da literatura universal (também outros favoráveis às formas de totalitarismo, mas principalmente os nazistas).
No entanto, eis que Bravo nos apresenta um nazista, não apenas um simpatizante, um soldado. À primeira vista, pensamos tratar-se mesmo de um nazista: ele nos foi apresnetado assim, mas com a leitura do texto percebemos que Junger não era simpatizante da perseguição aos judeus e foi contrário ao estabelecimento de uma única ideologia na Alemanha. Da ideologia nazista, ele apenas era favorável ao amor à pátria e ao militarismo; Junger não acreditava na democracia como forma de solução à crise.
Depois de introduzir ao leitor quem é o autor de quem a matéria fala, o texto traz uma pequena retranca sobre a obra Nos Penhascos de Mármore, escrita em 1939, mas só agora traduzida em português. A matéria é curta, mas cumpre seu papel: nos apresenta o autor, defende motivos pelos quais vale a pena lê-lo e nos apresenta a obra que busca vender, por que nenhuma matéria de Bravo é jogada.
Nas livraria, o leitor de Bravo sempre se sente inteirado dos lançamentos e pode deixar seu rico dinheirinho por lá, se assim desejar. A revista tenta, se você cairá na propaganda ou não, fica a seu critério. Finalizo minha participação neste blog com um aviso amigo desta que já foi apenas uma leitora de Bravo: não se engane achando que Bravo busca instigar sua ânsia intelectual; você, aqui, é sempre um endinheirado consumidor.
1 comment December 1, 2008
O simpático velhinho
Bruna Buzzo
Se outubro foi um mês fraco para os Livros da Bravo, novembro veio reviver o gosto por uma boa leitura com ninguém menos que José Saramago, o maior escritor em língua portuguesa da atualidade, e o lançamento de seu A Viagem do Elefante, obra que o escritor teve medo de não ver terminada.
A matéria é vasta: duas páginas (e alguns pedacinhos) sobre a vida, as obras e a tragetória de Saramago pelos campos da política, cultura, internet. Depois de explicações sobre diversos livros e temáticas, uma entrevista com o próprio, concedida a Bravo por email, onde nosso simpático velhinho responde a questões que vão desde seu novo livro até as eleições presidenciais norte-americanas (então ainda não realizadas), passando pela bem sucedida adaptação cinematográfica de Ensaio sobre a Cegueira.
A matéria, entitulada A Vida depois do Nobel, se apresenta ao leitor de forma muito mais simpática e atraente do que se fosse apenas uma explanação sobre os efeitos do prêmio na obra do autor e na literatura de seu páis. O repórter Almir de Freitas conseguiu unir estas informações, importantes quando se fala do maior prêmio do mundo literário, com a simpatia de José Saramago, compondo uma matéria coesa, bem explicada e que atrai o leitor, apesar de ser maior do que de costume. A disgramação leve também ajudou bastante neste ponto.
Folheando a revista, a sessão de Livros prende a atenção logo de cara: a primeira dupla da matéria, traz uma página só com texto, enquanto na outra página, temos nosso colega de pátria mãe (a língua, de F. Pessoa!) a nos observar. Saramago lança aos leitores um olhar de questionamento, um convite à leitura. Sua face é uma interrogação, um susto e também um consolo.
Aos 87 anos, este grande senhor sobreviveu à pneumonia, terminou seu novo livro, um conto de 258 páginas, como ele nos apresenta a obra. O Nobel apenas fortaleceu sua escrita: a hipotese de que o preêmio pode ser o final de um autor não se concretizou. E, para nossa sorte, Saramago esta mais saudável do que nunca e, atualmente no Brasil, ele até posta sobre em seu blog. Por hoje em dia, todos temos muito a dizer!
Add comment November 23, 2008
Faltam livros!
Bruna Buzzo
Editorialmente falando, outubro deve ter sido um mês fraco. Talvez as editoras não tenham lançado livros interessantes, ou, quem sabe, a direção da Revista Bravo! não gostou muito deles. Na sessão de literatura, apenas dois textos, uma matéria e uma crítica. Se as Artes Plásticas e a Música foram bem em Outubro, faltaram Livros nesta edição. Talvez a abundância de setembro tenha esgotado a profusão editorial.
Na falta de livros, Bravo nos fala sobre O Forjador de Escritores, Assis Brasil, dono de uma “escola de autores literários”. O gancho publicitário para a matéria é o lançamento do livro de um de seus pupilos, Daniel Galera. A parte boa é que não sentimos tanto que a revista nos empurra um produto (como às vezes acontece, especialmente com CDs e Livros), mas, por outro lado, o assunto tratado nesta matéria também pode parecer irrelevante. O sujeito treina escritores. Legal, e dai? Parece que falta algo.
A matéria da revista Bravo! nos conta como funciona um escola de autores, quais os critérios usados na rigida seleção para as 15 vagas anuais e fala dos principais sucessos obtidos por seus ex-alunos. Depois de nos falar sobre as obras publicadas pelos principais destaques da escola de Assis Brasil, Bravo! dedica um intertítulo ao professor e à sua obra, nos mostrando quem é este que ensina, qual sua tragetória literária e como ela completa os fundamentos que o escritor prega em sala de aula.
O escritor Assis Brasil acredita no talento como elemento fundamental à criação literária, um talento liberto pela técnica e por muito treino. Por seus argumentos, Bravo elogia o mestre e, ao longo do texto e no box final, nos lembra de vários título pelos quais podemos nos interessar, apenas um deles lançamento. À Bravo de Outubro, faltou buscar um lançamento que fosse vendável e um pouco mais simpático aos olhos dos leitores que o simpático professor, seus alunos e sua vasta estante de livros.
1 comment November 10, 2008
Machado hoje e sempre
Bruna Buzzo
Em setembro, a morte de Machado de Assis completou 100 anos. Sua obra ganhou republicações, novos livros de contos e análises e várias reportagens em diversos veículos. Dentre elas, a Editora Abril dedicou espaços ao maior escritor brasileiro nas revistas Bravo e Veja, com diferentes foco, tamanho e abordagem.
Bravo analisa a obra machadiana, os principais temas por ela abordados e os novos estudos que foram lançados, com foco nestes últimos e usando a voz de professores especialistas no assunto para legitimar as teorias que nos mostra sobre a obra de Machado. Sem esconder que busca vender as obras citadas ao longo do texto, a matéria deixa claro que foi escrita por um jornalista com consultoria de um professor da Universidade de São Paulo (USP) e, além deste, entrevista diversas fontes do meio acadêmico que lhe servem como base e de onde o texto extrai muitas de suas aspas.
Em foco, as “obsessões” de Machado que estiveram sempre presentes em sua obra, independentemente do período e das mudanças de estilo pelas quais o escritor passou: o diálogo com o leitor, a sátira ao pedantismo, o ciúme, o dinheiro e o parasitismo da elite, dentre outras possíveis.
O texto de Bravo fala de diversas obras de Machado, desde clássicos como Memórias Póstumas de Brás Cubas até um livro com contos pouco conhecidos recém-lançado (de novo, o marketing!). Ao longo do texto, trechos dos livros e imagens ilustram e complementam a matéria. Citações de especialistas e trechos de obras foram muito bem selecionados: das falas dos professores às sábias palavras do grande mestre da literatura brasileira, vemos que as teses sobre os temas abordados por Machado em suas obras confirmadas.
As obsessões do escritor são exemplificadas pelos trechos de obras que os quadros de Bravo seleciona, com divertidas passagens de suas principais obras. Nas imagens, caricaturas do escritor, fotografias e ilustrações feitas baseando-se na obra de Machado.
Já na revista Veja, o foco da imensa matéria sobre o escritor é muito mais para a sociedade da época do que para a obra machadiana, lançando-lhe um olhar mais geral. A matéria de Veja traz retratos da sociedade do século XIX ilustrando-a, com algumas poucas representações do próprio Machado e de figuras ou lugares presentes em sua vida. Assim como Bravo, Veja também usa um grande número de especialistas e professores para obter aspas e legitimar suas frases.
Veja procura destacar que o grande mérito de Machado, mais do que tornar-se um autor de destaque no Brasil, foi fazer com que suas obras tivessem abrangência universal, não restringindo-se às nossas terras. Nas 12 páginas que a revista dedicou à obra machadiana, o repórter Jerônimo Teixeira analisa a trajetória de vida do nosso escritor, mesclando-a com cenários da época e citações de obras que nos mostram toda a genialidade e desenvoltura presentes em Machado. A matéria traz ainda a visão de um tradutor de Machado para o inglês e de um novo escritor brasileiro que carrega, como todos os seus, o peso de ser herdeiro da literatura do mestre.
Add comment October 15, 2008
Nasce uma literatura nacional judaica
Bruna Buzzo
A matéria Os Filhos de Israel, publicada na Revista Bravo de setembro, fala da primeira geração de escritores judeus nascidos em Israel: Amos Oz, A. B. Yehoshua e David Grossman compõem esta nova linhagem da literatura judaica e, não por coincidência, têm novos livros lançados aqui no Brasil. Estava criado o gancho necessário para que Bravo publicasse uma matéria sobre o assunto.
Para nos apresentar (e vender) os três autores, Bravo analisa a obra de cada um, destaca preferências temáticas e principais trabalhos e fala de como as letras de Israel estão ganhando identidade nacional agora que não dependem mais de autores imigrantes. Para completar a familiarização dos leitores com a literatura judaica, Bravo parte dos novos autores para as duas linhagens (européia e norte-americana) desta literatura e depois retorna aos três israelenses citados, fechando a matéria de forma perfeita e muito bem estruturada.
Sobre A. B. Yehoshua, David Grossman e Amos Oz, Bravo nos fala que o primeiro é um otimista, o segundo, melancólico e o terceiro junta a condescendência de um ao ceticismo do outro, sendo o mais completo dos três. Neste contexto de explicar quem é cada autor, cita livros recém-lançados e também outros livros mais antigos já publicados. O autor fala também de como Oz reflete sobre o fim da guerra entre judeus e palestinos: “todos saíram perdedores, desencantados e unidos, o único meio de se chegar a paz.”
Os três escritores lutam pela paz, o tema de suas obas é o cotidiano israelense, a política e a guerra são apenas pano de fundo para a ação, que se desenrola sem panfletarismo. Nos livros, a vida dos personagens é marcada pelo sionismo, o holocausto e a guerra com os palestinos, mas estes fatos não pautam suas vidas (como acontece em muitos livros da Escola Européia).
Bravo fala de como estas duas linhagens ou escolas literárias, a européia e a norte-americana, influenciaram os novos autores na criação de sua literatura. Da linhagem européia, cita autores e o tema que os norteia: escrevem com “a pena de quem enxerga o preconceito e a morte”, pré, pós e durante o holocauto e o nazismo”. Da linhagem norte-americana, segue o mesmo principio de descrição usado na escola anterior, mas desta vez cita obras dos autores, provavelmente devido ao fato de serem menos conhecidos que os europeus (dentre os quais de destacam Franz Kafka e outros que dispensam apresentações).
Nos EUA, a literatura judaica deixou a morte para trás e passou a falar da luta para se estabelecer e crescer na nova terra. Eram autores e livros que lutavam contra o preconceito ainda existente na nova terra, ainda que em menor número do que na Europa, são textos bem humorados e, no geral, otimistas.
A matéria de Bravo termina com o gancho perfeito: as duas escolas literárias são perfeitamente ligadas aos novos autores e o leitor não sente quebra de temas ou problemas na coesão do texto, que é perfeita. O repórter Jonas Lopes fala do modo como os três autores usaram influencias das duas escolas literárias para criar uma literatura própria, um estilo israelense de escrever.
Add comment October 11, 2008
Luis está online
Eduardo Hiraoka
Luis Fernando Veríssimo é conhecido por não gostar de entrevistas. Ele se diz tímido, não gosta de falar.
Em setembro, a revista Bravo! conseguiu arrancar-lhe algumas palavras e arranjou uma ótima solução para o problema da timidez – fazer a conversa em um bate-papo virtual. Afinal, por que fazê-lo falar, se ele tão bem sabe escrever?
No lado de lá da tela do computador, outro homem das letras, o romancista Marcelo Rubens Paiva. Assim, o formato escolhido para a entrevista beneficiou ambos neste aspecto que lhes é comum.
Se estes métodos são ainda depreciados no meio jornalístico, na matéria da revista Bravo!, o encontro virtual tornou-se uma ótima alternativa e um grande atrativo. Uma idéia ousada, executada, porém, com cuidadosa despretensão. Como resultado um texto que aliou a casualidade de um papo de boteco e o caráter jornalístico da informação.
A conversa desenrolou-se em um tom descontraído, suscitado pela ocasião inusitada. Aparentemente mais à vontade, o cronista gaúcho pôde explorar sua principal característica, o bom humor – do qual Rubens Paiva também sabe se servir. Os dois falaram sobre curiosidades, mulheres e futebol, mas sem deixar de lado a literatura e o gancho principal da matéria – o novo livro de Veríssimo, “O mundo é bárbaro”.
Se em suas respostas, não vimos ainda um entrevistado dos mais prolixos, ao menos ganhamos as palavras bem escolhidas de um habilidoso escritor.
1 comment October 7, 2008
Diferentes campos de literaturas irmãs
Bruna Buzzo
Uma das matérias da parte de literatura da Revista BRAVO! de agosto, Sigmond Freud e seu duplo, da psicanalista Noemi Moritz Kon, analisa a relação entre Sigmond Freud e Arthur Schnitzler, dois escritores com teorias muito parecidas, mas que atuaram em campos bastante diferentes da literatura e produção científica.
O texto de BRAVO! foi muito bem escrito e trás informações relevantes na comparação entre a obra dos dois austríacos. Ambos eram judeus e pertenciam à burguesia de Viena, na virada do século XIX para o XX. Como Freud, Schnitzler chegou à cursar medicina, por pressão dos pais, mas assim que seu pai faleceu definiu-se definitivamente como escritor. Os caminhos dos dois autores de entrelaçaram (e poderiam ter se cruzado) em vários momentos, bem como suas profissões.
A matéria nos mostra que as obras destes dois, um partindo do ponto de vista acadêmico e o outro do
literário e artístico, apresentam teorias semelhantes com relação ao comportamento e à sexualidade humanas. O leitor é apresentado à diversas obras de ambos os autores, suas semelhanças e pontos em comum.
A reportagem foi ilustrada com gravuras que remetem aos polêmicos temas abordados nas obras destes dois austríacos. Os “box” presentes nas páginas comparam trechos de obras que nos mostram a semelhança que levou Freud a falar de Schnitzler como sendo o seu duplo. Os autores nunca se conheceram, a não ser por algumas cartas que trocaram. A psicanalista e autora de um livro sobre a ligação entre os dois autores, Noemi Kon, nos apresenta este universo de diferentes semelhanças com maestria e direito de fala.
Add comment September 19, 2008


