Ricky Hiraoka
Filmes sobre guerra são tão constantes na cinematografia norte americana que constituem um gênero próprio. As produções hollywoodianas retrataram, e muito bem, importantes conflitos armados. A guerra de independência, a Guerra de Secessão, as Grandes Guerras Mundiais e a Guerra do Vietnã geraram clássicos do cinema. Entretanto, a guerra travada contra o terrorismo ainda não produziu nenhuma obra digna de nota. Os filmes sobre o tema não conseguem vencer a barreira do sucesso e se tornar campeões de bilheteria.
Arma política
Há episódios bem conhecidos sobre como o cinema foi usado para despertar nos jovens o desejo de fazer parte das Forças Armadas. O mais clássico é o Top Gun – Ases Indomáveis, estrelado por Tom Cruise e Val Kilmer. O filme ajudou a glamourizar a imagem dos militares e faz parecer que lutar em guerras é a mais comum das atividades.
Durante as filmagens de A Cor do Dinheiro, Paul Newman alertou Cruise do fato dele ter sido usado para promover a indústria bélica e de guerras através de sua beleza. Em contrapartida, Cruise produziu e protagonizou Nascido em 4 de Julho, que falava de um veterano da Guerra do Vietnã que se torna um ativista político contrário às guerras. Foi a forma que ele encontrou para se desculpar pela propaganda pró-guerra.
Utilizar o cinema como arma política já não surte o mesmo efeito. Ao contrário de outras guerras, o combate contra o terror não conseguiu legitimidade através do cinema. Ao que tudo indica, a máquina de guerra dos Estados Unidos perdeu uma importante arma política. A reportagem A Guerra em Três Tempos faz um interessante panorama sobre a relação do cinema com as guerras. Retomando clássicos do gênero, André Nigri explica, com muita competência, como cinema e guerra se inserem na cultura ianque e como uma coisa interfere e influencia a outra.
December 3, 2008
Ricky Hiraoka
“Quem é você?” perguntou Carolina após assistir o novo filme de Woody Allen. “Eu?” assustei-me. “Ou você é Vicky ou você é Cristina. Só existem esses dois tipos de pessoas no mundo” insistiu. “Só dois tipos? Então, sou Cristina” respondi em dúvida. Após essa conversa, fiquei pensando no que Carol havia me dito. Só dois tipos de pessoas? Impossível, conclui.

Rebeca Hall (Vicky) e Scarlett Johansson (Cristina)
Então, fui ler a matéria principal da BRAVO! sobre Woody Allen e o sua nova obra-prima, o espetacular Vicky Cristina Barcelona. Após a leitura passei a duvidar da conclusão de minha amiga e colega de blog. A reportagem Mergulho na Mente do Artista consegue captar a complexidade e a genialidade de um dos maiores artistas contemporâneos: Woody Allen. Com muita sutileza, o texto de João Gabriel de Lima vai desvendando as veredas provocativas e nem sempre percebidas da obra artística de Allen.
Misturando informações do livro “Conversas com Woody Allen” e da filmografia do cineasta, o jornalista revisita importantes momentos da carreira de Allen e destrincha os trabalhos do adorável neurótico em três pilares capazes de fazer os leitores entender o que o nova-iorquino já produziu. É interessante observar esse aspecto didático-filosófico que a reportagem possui. João Gabriel consegue captar as nuances das personagens de Allen e esclarece o processo criativo do cineasta. Tarefas árduas para qualquer jornalista. Com alguns acréscimos de informações, essa matéria poderia, facilmente, ser transformada em um ensaio sobre Woody Allen e sua obra.
Após a leitura da matéria, cheguei a seguinte conclusão: existem, no mundo, Vickys, Cristinas e existem Vickys Cristinas Barcelonas, que são a minoria. Só alguém Vicky Cristina Barcelona poderia criar um filme tão fantástico. Só alguém Vicky Cristina Barcelona poderia escrever uma reportagem tão arrebatadora. Só alguém que não Vicky Cristina Barcelona poderia afirmar que no mundo só existem dois tipos de pessoas. Desculpe, Carolina! Creio que você não leu a BRAVO desse mês.
November 15, 2008
Ricky Hiraoka
Tão complicado quanto o sistema eleitoral americano, a seleção e a votação para escolher o filme estrangeiro que merece receber o Oscar nessa categoria confunde desde cinéfilos até jornalistas. Na reportagem, O que Bruno Barreto Precisa Para Ganhar o Oscar?, a repórter Elisa Tozzi se equivocou ao explicar os critérios de escolha do vencedor do Oscar de Melhor Filme de Língua Não Inglesa. Em junho de 2008, as regras foram modificadas. Até esse ano, os filmes indicados e o vencedor eram totalmente escolhidos por um comitê sediado em Los Angeles. Agora, os nove finalistas à disputa para as cinco indicações serão selecionados da seguinte maneira: o comitê especializado em filmes estrangeiros escolhe três finalistas, e os outros membros da Academia escolhem mais seis finalistas, desde que eles tenham assistido a um número mínimo de filmes que estão na disputa. O voto final dos cinco indicados e do vencedor será dado pelo comitê de produtores cinematográficos.
Essa imprecisão poderia passar desapercebida em veículo que trate de assuntos gerais, mas em uma revista especializada em cultura isso é imperdoável. Os leitores-cinéfilos de BRAVO! que possuem um conhecimento maior sobre detalhes de eventos culturais, com certeza, perceberão o equívoco.
Erros a parte, a reportagem traça um panorama dos elementos necessários para se conseguir uma indicação ao Oscar. A abordagem é muito didática e o leitor que não está interado de como funciona o mercado cinematográfico norte-americano entende a lógica para se dar bem nos cinemas dos Estados Unidos. Entretanto, esse caráter de “receita” que a reportagem dá ao processo de seleção ao Oscar passa a falsa impressão que seguindo os passos indicados Última Parada 174 conseguirá uma das cinco valiosas vagas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. E isso dificilmente acontecerá. Quem viu o filme, sabe que ele possui falhas graves no roteiro, que lembra o enredo de uma novela mexicana, e interpretações caricatas. Além disso, Bruno Barreto não tem pulso para orquestrar as situações e deixa escapar os momentos de tensão da trama.
O que Bruno Barreto Precisa Fazer Para Ganhar o Oscar? Um bom filme seria um ótimo começo. E Última Parada 174 está longe disso.
November 5, 2008
Ricky Hiraoka
Ainda é um mistério o que torna uma determinada atriz uma musa. Não é só beleza, nem só talento. Uma musa precisa ter uma série de predicados aliados a uma aparência marcante, o que não implica em ser necessariamente bela. Mas todas as musas têm uma característica comum: elas não são eleitas e sim, naturalmente escolhidas. Explico a diferença: ninguém proclama ninguém ao cargo de musa, muito menos a imprensa.
A relação entre a musa e o artista ultrapassa o bom senso; não se explica o que leva uma pessoa a se inspirar a partir da figura de outra. A tentativa de entender racionalmente o que uma musa significa para um diretor e vice-versa faz com que o encanto seja quebrado.
A reportagem da BRAVO, A Nova Candidata a Musa, tenta, em vão, vender Clotilde Hesme como a nova musa do cinema francês. É difícil entender o que levou o repórter Carlos Messias a chegar a essa conclusão. Ludivine Sagnier, sua colega no excelente Canções de Amor, é mais bonita e muita mais expressiva do ponto de vista artístico. Se é para levar em consideração a relação com o diretor Christopher Honoré, então não temos uma musa, mas um muso: Louis Garrel, ator-fetiche com quem o diretor francês trabalhou nos filmes Em Paris e Canções de Amor. Garrel tem muito mais importância e destaque do Clotilde no filme. Não é justo considerá-la a “musa”, já que a personagem de Garrel que desencadeia toda a ação de Canções de Amor enquanto Clotilde é uma coadjuvante.
Creio que o motivo que fez o repórter proclamar Clotilde Hesme a nova musa do cinema francês foi o fato da atriz ter visitado São Paulo durante o Panorama Francês de Cinema. Só isso explica uma tão atriz sem graça e com uma filmografia tão curta ser eleita musa de um cineasta. Falta consistência a carreira de Clotilde Hesme para que ela seja musa.
Essa não é a única falha na reportagem. O jornalista lista uma série de importantes atrizes francesas com musas de alguns cineastas, mas só considera digna desse título quem teve algum envolvimento sexual com o diretor. Isso não é necessariamente verdade. Isabelle Huppert, talentosa atriz francesa, fez três filmes com o icônico Claude Chabrol, mas nem foi elencada na lista de musas do cinema francês.
Para divulgar Canções de Amor, melhor seria se a reportagem abordasse a carreira dos três jovens astros que estrelam o filme. Garrel já é uma unanimidade entre cinéfilos e profissionais do ramo, Ludivine é uma estrela em ascensão com um apelo sensual incontestável e Clotilde terá um longo futuro como coadjuvante. Nada mal para um ramo tão competitivo.
October 13, 2008
Ricky Hiraoka
Foi bem original a abordagem dada por BRAVO à divulgação do segundo longa-metragem internacional de Fernando Meirelles, Ensaio Sobre A Cegueira. André Nigri usou as dificuldades da “indústria” cinematográfica nacional e o “sonho” de filmar em terras estrangeiras para falar da adaptação para as telonas do livro de José Saramago.
Detalhando a saga que um cineasta brasileiro precisa passar para conseguir dinheiro e filmar o roteiro que tem em mãos, o repórter expõe o nosso atraso nessa área. É lamentável constatar que o Brasil possui talentos, como Fernando Meirelles e Walter Salles, que precisam sair do país para alcançar o sucesso e a repercussão merecidos. Entretanto, a carreira no exterior não é feita apenas de glamour e glórias.
Em sua reportagem, Nigri toca em um ponto delicado e controverso do mercado internacional: a pouca autonomia na hora de filmar. Walter Salles e Bruno Barreto, que possui uma inexpressiva e desastrosa filmografia internacional, tiveram problemas ao comandar produções hollywoodianas. Meirelles, ao contrário, nunca teve que lidar com os canibais americanos nem em O Jardineiro Fiel, nem em Ensaio Sobre A Cegueira, tendo direito ao final cut.
Seja como for, a reportagem consegue expor as dificuldades que um cineasta tem que enfrentar para fazer cinema no Brasil. É como sobreviver em uma selva caótica em que o que vale é a lei do mais forte. Essa sensação é a mesma que as personagens do filme de Meirelles vivenciam durante a epidemia de cegueira branca. Elas têm que encontrar uma forma de viver sob a nova condição a que estão sujeitos. Os cineastas brasileiros vivem essa mesma realidade: precisam exercer seus talentos a partir dos parcos recursos que possuem. Ensaio Sobre A Cegueira é uma fábula sobre a adaptação e a superação dos obstáculos. Ser cineasta no Brasil é viver a cada instante essa fábula. Nem o talento literário e a criatividade de Saramago garantiriam um final feliz para os astutos heróis do nosso cinema.
October 9, 2008
Ricky Hiraoka
A matéria de capa da última edição da BRAVO mostra um fato que há tempos algumas pessoas já desconfiavam: o povo quer se ver retratado, mas não quer ver a verdade cotidiana, nua e crua, estampada nas
telonas. Se os documentários não provocam o furor nos espectadores, tramas ficcionais baseadas na realidade podem ser bem sucedidas e alcançar uma certa repercussão.
É, no mínimo, incompreensível, para não dizer surpreendente, que essa ligação tenha demorado tanto para acontecer. A TV, que funciona bem melhor que o nosso cinema, já tinha percebido essa sacada: as pessoas querem o máximo de realidade, mas uma realidade que faça concessões às artimanhas da ficção. Exemplos dessa teoria não faltam: as novelas de Manoel Carlos, que pretendem ser uma crônica fiel do dia-dia sem abrir mão de lances folhetinescos,e os reality shows em que algumas regras e situações artificiais definem e influenciam comportamentos causando grande comoção. Alguém lembra do casal Siri e Alemão sofrendo nas mãos do dissimulado Alberto Caubói? O que os espectadores viam nesses programas? Realidade ou um show com toques de verdade?
Seja como for, o cinema adotou essa prática. Não é exagero dizer que tudo começou com o super realista Cidade de Deus. Desde seu lançamento, a realidade vem influenciando cada vez mais as nossas produções cinematográficas e vem perdendo a sua força. Se na obra-prima de Fernando Meirelles a violência impressiona pela verossimilhança, emTropa de Elite o humor balanceia seqüências “fortes”.É como se as nova safra de filmes que desejam ser um retrato da verdade tivesse colocado açúcar nos dramas retratos nos documentários. Mas a matéria de BRAVO demonstra que essa não foi a única mudança. Os filmes de ficção foram, aos poucos, assumindo uma linguagem documental. Muitos utilizam atores amadores na tentativa de recriar a naturalidade típica do cotidiano. A fotografia, em geral, bem “suja” e a câmera nervosa são características de documentários que foram adotadas pela ficção.
O que BRAVO fez foi ligar as pontas de pensamentos soltos que alguns de seus leitores já cultivavam a respeito da relação ficção-documentário. A revista legitima uma teoria que há algum tempo já atormentava a cabeça dos mais atentos. BRAVO presta uma espécie de serviço àqueles que não têm autoridade suficiente para comprovar suas idéias sobre os movimentos culturais do Brasil. Houve um retrospecto das produções que tinham um pé na realidade bem como entrevistas com os responsáveis por essa tendência cinematográfica. Ouviu-se o necessário e escreveu-se o preciso. E o mais importante: o repórter André Nigri faz uma observação que pode parecer simples, mas que, na verdade, é oriunda de movimento cultural tão complexa que quase ninguém comenta por aí: o cinema é arte mais relevante e a mais discutida pelos brasileiros. O cinema percebeu o óbvio e, BRAVO nos revelou o que estava diante de nossos olhos.
September 15, 2008