Opinião pela reprodução
December 2, 2008
Começo esse post pela mesma pergunta do fim da matéria “O artista de um bilhão de dólares” da edição de novembro: “qual arte?”. E a partir daí podemos traçar uma série de teorias que poderiam ser formuladas dentro do âmbito da academia ou, até mesmo, na mesa de um boteco (afinal, geralmente, todos têm uma opinião sobre o assunto, ainda que se valha apenas sobre gosto/não gosto). No entanto, a matéria em questão não busca lhe responder muitas dúvidas com relação às obras do artista Damien Hirst ou mesmo sobre arte conceitual como um todo. As questões, que recorreriam à estética, filosofia, antropologia e sabe-se lá mais o que, não são nem muito debatidas na matéria. O foco jornalístico é basicamente reportar ao leitor o sucesso que Hirst vem tendo em seus “negócios” e a maneira como está fazendo isso dentro do mundo da arte.
O fato que deu origem à pauta, provavelmente, foi o leilão realizado em setembro que bateu recorde de obra mais valorizada (economicamente) de todos os tempos – antes, o título era de Pablo Picasso. Depois de alguns veículos de comunicação tradicionais como, por exemplo, The Guardian, o Times e o New York Times, foi a vez da Bravo! contar ao público o que o artista anda fazendo por aí. A polêmica em torno das obras de Hirst é explicitada pelo repórter por meio da opinião de diversas fontes que são autoridade no meio – Oliver Bark, Robert Hughes, Grayson Perry, entre outros. O repórter constrói o texto de modo apenas a expor os fatos e as questões em torno do assunto sem se aprofundar.
Particularmente, me questiono com relação ao papel do jornalista dentro do meio cultural. A mídia propaga a opinião dos críticos bem como é capaz de construir seu próprio conceito em relação às obras de determinado artista. Nessa matéria a Bravo!, talvez pela tentativa de imparcialidade, não assume sua função nem de crítica nem de espaço de discussão. O aparente debate feito pela oposição de opiniões de críticos não é capaz de elucidar o leitor a respeito da obra de Damien Hirst.
O que fica evidente é a habilidade do artista, citada inclusive na matéria, de usar até mesmo as críticas a seu favor. Pois, como diz Anna Cauquelin*, “o papel do crítico é, doravante, o de ‘colocar o artista, seja integrando-o a um grupo de oposição, seja isolando-o como figura singular e, portanto, original. Originalidade compensada – como seria de esperar – pelo tratamento do comentário que mediatiza seus fatos. Isso porque coloca-lo em sua prosa jornalística ou em seus escritos é atrair a atenção do público e também vendê-lo”. Arte ou não, a Bravo! legitima a importância de Hirst e propaga seus feitos, ainda que o considere, ou não, apenas “o artista de um bilhão de dólares”.
* CAUQUELIN, Anne. Arte Contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
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