Archive for September, 2008
Nem tão estranho assim
Eduardo Hiraoka
O grande mérito de Paulo César de Araújo na reportagem Guerra e Paz foi o fato de ter revisitado o passado de um assunto desconhecido por muitos e pouco comentado pela imprensa especializada: os vai-e-vens do relacionamento entre Caetano Veloso e Roberto Carlos.
O autor traça um histórico desta amizade pontuada por trocas de farpas, contrapondo os fatos ao aparente clima pacífico que permeou os shows divididos pelos dois cantores em homenagem à Bossa Nova. Para quem os desconhecia – como eu – os episódios descritos por Paulo César mostram-se, não só como fatos curiosos, mas também como ingredientes que valorizam (ainda mais) a importância deste recente encontro.
Quanto ao texto, se seu início soou-me bobo, com duas citações seguidas (uma no título e outra logo na primeira linha), o restante segue sem maiores problemas. Sua estrutura é clara e bem organizada. O autor consegue não tornar confusa sua viagem por quatro décadas de história. Personagens bem caracterizados e descrições detalhadas constroem uma narrativa sólida e confiável. Como único porém, cito a falta de uma maior aproximação com os envolvidos – para a captação de depoimentos atuais, por exemplo – o que poderia enriquecer a reportagem. Mesmo assim, tal falha não chega a prejudicar a credibilidade do texto.

Paulo César esforçou-se também para evitar que sua narrativa fosse afetada por seus desentendimentos com o ídolo da Jovem Guarda. Apesar das “alfinetadas” (como o segundo intertítulo da reportagem) e da menção ao caso da proibição de seu livro, o autor consegue expor os fatos sem defender ou crucificar um ou outro lado.
Por todos estes fatores, “Guerra e Paz” serve ao propósito jornalístico de trazer informações e esclarecimentos. Explica o presente, analisando um fato atual à luz do passado. E ajuda leitores como eu, que, sendo uma das muitas pessoas que estranharam a união entre dois artistas tão distintos, pude agora compreendê-la um pouco melhor – e achá-la um pouco menos estranha.
2 comments September 23, 2008
Choque de Realidade
Carolina Rossetti
A revista Bravo! do mês de agosto proporcionou aos seus leitores um debate instigante a respeito da influência do documentário na ficção. Duas matérias dessa edição partiram dessa mesma proposta, provar que características próprias do documentário podem ser observadas nos campos do cinema e teatro.
A reportagem de capa “Eu vi um Brasil no cinema”, do jornalista André Nigri, comenta a aproximação do cinema nacional da atualidade com os valores e estética do documentário. A matéria “Choque de Realidade”, da seção Teatro e Dança, pega carona nesta discussão e tenta provar que o gênero documental também pode se aproximar da dramaturgia. Vemos uma tentativa do corpo editorial da revista em sustentar um mesmo discurso central – a influência do documentário na ficção – em diversas seções da publicação, dando coesão e aprofundado o debate sobre um tema polêmico.
Em “Choque de Realidade”, texto de Gabriela Mellão, a peça Ingrid de caráter biográfico – baseada na vida da franco-colombiana Ingrid Betancourt, ex-refém das Farc – é o argumento usado para aproximar o teatro influenciado por acontecimentos reais ao gênero documental. Mellão cita que com a libertação de Betancourt, em 2 de julho, a peça teve que ser reestruturada inesperadamente. A jornalista busca essa aproximação com o documentário devido à maneira como a montagem da peça ocorreu.
A atriz que interpreta Ingrid, Carolina Virgüez, iniciou esse projeto há quatro anos. Na medida em que novas informações sobre o cotidiano de Ingrid no cativeiro eram reveladas a peça se transformava, chegou ao ponto em que “a atriz se viu impelida por trocar imaginação por realidade”. Acredito que a jornalista foi precoce ao fazer essa conclusão. Nem mesmo a atriz é tão precipitada em aproximar essas duas atividades, afinal “é difícil precisar se isso é um gênero”, pondera a Virgüez. Tenho que concordar que talvez seja forçada a semelhança da peça ao documentário. Vejo que Ingrid se propõe a ser muito mais uma interpretação cênica da vida de uma pessoa ao invés de um registro documental do cotidiano de Betancourt, durante os seis anos de cativeiro.
Sabemos, a partir do texto, que a preparação da atriz para encenar Ingrid se baseou em vídeos e cartas da ex-refém das Farc. Mas a interpretação que Carolina faz da figura de Ingrid tem também algo de intensamente pessoal. Uma relação íntima da atriz com o seu objeto de estudo. Carolina também é colombiana, naturalizada brasileira, e a força de sua encenação surge da mistura de sua história pessoal à de Ingrid. De acordo com a crítica Daniele Ávila, há duas identidades em jogo a de Carolina e a de Indrig, “não se quer chegar até Ingrid, mas ir em direção a ela”. A técnica despendida à encenação de Indrig se faz à moda de Stanislasky, em que relacionamento ator-personagem é simbiótico. Logo, a peça está distante do que poderíamos entender como um documentário biográfico encenado, como propõe a matéria.
A ansiedade da jornalista em comprovar a sua tese resultou em uma argumentação fraca no texto. Ela tenta criar pontes entre o trabalho de Carolina Virgüez (a matéria contém um erro de digitação, o nome da artista que aparece como Vásquez) com outro espetáculo cênico que de fato não tem nenhuma relação lógica. O trecho que mais me incomoda no texto de Mellão é a frase “a imaginação que Carolina acabou abandonando em Ingrid, é em contrapartida, essencial em As Três Garças (peça de Luis Alberto Abreu, inspirada em entrevistas)”. Primeiramente, como já comentei, é um juízo de valor dizer que a atriz não se utilizou de sua imaginação na montagem da peça. Segundo, não existe relação direta entre o trabalho da atriz com a peça de Abreu. Ela não participa dessa peça e não trabalha com esse dramaturgo. Inclusive uma peça se passa no Rio e outra estréia em São Paulo.
A oração foi mal construída porque comete não um erro, mas dois, ao gerar contradição na matéria. Se a peça de Abreu se utiliza largamente da imaginação não pode ser chamada de documental. Apesar de ser calcado em entrevistas com mulheres comuns, o cerne da peça é mostrar justamente “como cada personagem nasce de uma mistura entre a realidade do ator e a ficção”. As Três Garças é, como no caso de Ingrid, uma produção fictícia alicerçada em elementos da linguagem jornalística, apenas isso. Não cabe a meu ver, portanto, uma aproximação direta ao gênero documental, como foi a proposta original da matéria.
Add comment September 21, 2008
Diferentes campos de literaturas irmãs
Bruna Buzzo
Uma das matérias da parte de literatura da Revista BRAVO! de agosto, Sigmond Freud e seu duplo, da psicanalista Noemi Moritz Kon, analisa a relação entre Sigmond Freud e Arthur Schnitzler, dois escritores com teorias muito parecidas, mas que atuaram em campos bastante diferentes da literatura e produção científica.
O texto de BRAVO! foi muito bem escrito e trás informações relevantes na comparação entre a obra dos dois austríacos. Ambos eram judeus e pertenciam à burguesia de Viena, na virada do século XIX para o XX. Como Freud, Schnitzler chegou à cursar medicina, por pressão dos pais, mas assim que seu pai faleceu definiu-se definitivamente como escritor. Os caminhos dos dois autores de entrelaçaram (e poderiam ter se cruzado) em vários momentos, bem como suas profissões.
A matéria nos mostra que as obras destes dois, um partindo do ponto de vista acadêmico e o outro do
literário e artístico, apresentam teorias semelhantes com relação ao comportamento e à sexualidade humanas. O leitor é apresentado à diversas obras de ambos os autores, suas semelhanças e pontos em comum.
A reportagem foi ilustrada com gravuras que remetem aos polêmicos temas abordados nas obras destes dois austríacos. Os “box” presentes nas páginas comparam trechos de obras que nos mostram a semelhança que levou Freud a falar de Schnitzler como sendo o seu duplo. Os autores nunca se conheceram, a não ser por algumas cartas que trocaram. A psicanalista e autora de um livro sobre a ligação entre os dois autores, Noemi Kon, nos apresenta este universo de diferentes semelhanças com maestria e direito de fala.
Add comment September 19, 2008
A vinda de Coleman
Thaís Viveiro
Não conhecia Ornette Coleman antes de ler a matéria “A Volta do Revolucionário” da edição de agosta da
BRAVO!. O título pouco significava para mim . No entanto, o autor, José Alberto Bombig, teve a astúcia de colocar este nome ao lado de Coltrane - um figura do jazz muito conhecida, mesmo para aqueles que pouco conhecem o estilo. Ornette Coleman se tornou interessante por tabela a partir do uso de um conhecimento prévio do leitor.
Coltrane e Coleman são colocados a pé de igualdade, ambos revolucionários. José Alberto Bombig mostra a diferença entre eles logo no início da matéria: o primeiro morreu em 1967, enquanto que o segundo sobreviveu, carregando a difícil tarefa de continuar revolucionando. Isso explica porque um nome foi praticamente canonizado e o outro, um tanto desgastado pelo tempo. E explica também porque talvez o leitor não conheça Coleman, mas deve conhecer. E se deve conhecer, nada melhor do que sua biografia.
A história do saxofonista está muito bem contada, pinçando episódios interessantes de sua vida e da construção de sua carreira. Ao apresentar as dificuldades que enfrentou, cada vez mais é evidenciado seu aspecto de revolucionário, tornando verdadeira a comparação inicial. Alguns nomes contribuem para legitimar sua vitória, como o de Miles Davis.
Depois da apresentação, finalmente surge o assunto central da matéria: o novo trabalho de Coleman, Sound Grammar. Senti, no entanto, que ele foi abordado superficialmente (praticamente em dois parágrafos). No momento em que o leitor acaba de se familiarizar com o tema, o texto subitamente termina. Se acaso o leitor já conhecesse o saxofonista, pouco a matéria lhe acrescentaria.
Apesar de o jornalista ter entrevistado Coleman, ele parece muito distante. Esse material poderia ter sido mais aproveitado, acrescentando inclusive mais informações sobre Sound Grammar. Isso contribuiria para dar um desfecho melhor à matéria, deixando-a mais completa.
O êxito da matéria é atrair o leitor para um personagem que talvez lhe seja desconhecido. Chamar a atenção para um novo assunto é sempre mais difícil. Mas sempre mais enriquecedor para quem lê. Faltou apenas explicar um pouco mais a “volta” do personagem, como é sugerido no título.
Add comment September 17, 2008
Arte: ser ou não ser?
Stephany T. Guerra
A Bravo! é uma das principais publicações especializadas em cultura, grande parte de seu público é fiel à revista (pouco mais da metade dos exemplares é destinada às assinaturas) e, em geral, tem condições de freqüentar grande parte das programações sugeridas. A matéria Eu, Robô, que saiu na edição de agosto desse ano, é um dos exemplos de por que, para quem e como, o assunto foi abordado pela Bravo!.
O motivo pelo qual a mostra Emoção Art.Ficial 4.0 - Emergencial, retratada na matéria, foi destaque dentro da seção Artes Plásticas, está explícito já na linha fina: “uma máquina capaz de desenhar coloca a arte diante de um impasse”. O leitor identifica imediatamente a relevância do assunto e é chamado ao debate logo em seguida por meio da indagação “Até que ponto estamos dispostos a aceitar que uma obra possa ser feita com criatividade artificial?”. A revista dá projeção ao tema, que é muito recorrente entre os pensadores contemporâneos, e mostra estar em sintonia com o mundo a sua volta. Hoje, mais do que nunca, a tecnologia avança e modifica as relações sociais – dentre elas a produção e a percepção da arte.
Na verdade, a publicação tem um papel ambíguo: capta o que está em movimento ao mesmo tempo em que aponta e dá força aquilo que é informado. É um processo de ressonância, as principais exposições produzidas são selecionadas para matérias que, logo em seguida, retornam à sociedade canalizadas através de um texto para um público-alvo. Segundo a própria Bravo!, seu público consome cultura e espera que a revista “o oriente nas escolhas e se posicione em relação aos produtos e eventos culturais”.
A estrutura da obra
Transmitir através de palavras aquilo que os olhos vêem não é tarefa tão simples. As sensações provocadas por uma obra de arte são subjetivas e muitas vezes impossíveis de serem descritas. Logo, o grande desafio do texto é convencer o leitor de que a exposição em questão tem relevância para a sua vida cultural e talvez, até mesmo, ser capaz de fazer com que se interesse por conferi-la pessoalmente.
A matéria tem início pela descrição do robô – centro da exposição e da polêmica – e, de maneira simples, é capaz de despertar a curiosidade de quem lê. No entanto, é preciso dar certo embasamento teórico e mostrar ao leitor que a revista não apenas informa (descreve o que tem e onde), mas também analisa e acrescenta conhecimento. Para isso, explica-se a associação de RAP (Robotic Action Painter) com a técnica action painting do artista expressionista Jackson Pollock; relaciona-se a conseqüência da aceitação da obra mecanizada ao conceito de arte que há desde Duchamp; entre outras coisas.
Praticamente todos os argumentos, tanto a favor quanto contra, a respeito da mostra são construídos por meio das aspas. A matéria visa justamente mostrar-se a mais equilibrada possível pela organização das opiniões de pessoas da área artística. Leonel Moura, responsável pelo robô, defende sua criação e argumenta a favor da arte feita por ele e, também, feita pela máquina. Já os artistas Rodrigo Andrade e Giselle Beiguelman servem de contraponto à opinião de Moura ao apontarem ressalvas sobre esse tipo de classificação da arte.
A (in)formação cultural
Além da questão principal sobre os limites do conceito de obra de arte, há também o debate em torno da crítica e do mercado. A partir do exemplo de RAP a revista também retoma o tema da mercantilização do processo artístico, a falta de espaço para as novas idéias e as mudanças provocadas no meio pela tecnologia. Sob esse ângulo, conclui-se que a Bravo! informa e forma uma opinião cultural.
O fechamento do texto se dá por meio de uma “previsão” num tom aparentemente informal e descontraído, “Eis um trabalho de formiga mesmo – uma formiga que, se romper com as barreiras da tradição, pode, quem sabe?, estrear uma outra arte”. Esse final reforça a idéia de imparcialidade da Bravo! em relação a aceitação ou não do novo conceito de arte apontado ao longo da matéria, porém, é preciso atenção para o fato da publicação ser uma referência no mercado nacional de cultura. Se saiu na Bravo! é porque de certa maneira já possui relevância artística.
1 comment September 13, 2008



